Caiu o tabu, a educação a distância não é mais uma novidade. Novo, nesta área, é o crescimento da procura por cursos de pós-graduação lato sensu (especialização) e a perspectiva de se lançar a pós-graduação stricto sensu (mestrado ou doutorado) na modalidade a distância. De acordo com dados do Anuário Brasileiro Estatístico de Educação Aberta e a Distância (Abraead), em 2005 foram oferecidos 385 cursos de pós-graduação lato sensu e seqüencial, com 104.513 alunos matriculados, 32% a mais do que no ano anterior, quando foram 259 cursos e 61.637 alunos.
A pós-graduação lato sensu é indicada para quem já está no mercado de trabalho e precisa atualizar seus conhecimentos, para quem pretende mudar de área sem cursar uma nova graduação e mesmo para aqueles que acabaram de sair da faculdade e desejam aprofundar seus estudos. A oferta de cursos ministrados a distância é uma vantagem para os alunos que precisam escolher o próprio horário de estudo ou moram muito longe de instituições que oferecem os cursos desejados. Mas a qualidade é a mesma?
Para o coordenador geral de cursos lato sensu da Universidade Metodista de São Paulo, Rodolpho Weishaupt Ruiz, sim, a qualidade é a mesma de uma pós-graduação ministrada no modelo tradicional. “A presencial e a feita a distância têm a mesma qualidade. Os professores que trabalham com EAD passam por um curso específico e são acompanhados e avaliados. Além disso, professores e alunos avaliam o curso dado e têm a chance de dizer como vêm se sentindo. Outra prova da qualidade é que muitos desses cursos já são ofertados para o exterior”, diz.
E Ruiz arrisca ir mais longe. “As pessoas estão entendendo que esse tipo de pós-graduação é tão bom quanto o presencial e até melhor.” Isso porque é preciso ter maior rigor na preparação e na elaboração do conteúdo do curso, explica Ruiz. “O professor tem, a todo momento, de se colocar no lugar do aluno e imaginar como ele está recebendo a informação passada, as confusões, interpretações erradas e dúvidas que podem surgir. Em sala de aula, percebe-se na hora a dúvida. Já no ensino a distância o professor precisa de mais rigor na preparação do conteúdo do curso para supor quais seriam as perguntas feitas e se antecipar a elas. Dá trabalho”, diz o coordenador.
Mas a opinião de Ruiz não é um consenso entre os educadores. Para Armando Terribili Filho, que faz doutorado em Educação na Unesp de Marília e é professor de cursos de graduação e de pós-graduação na área de Administração e Sistemas, ainda é preciso ter cuidado porque a modalidade a distância deixa a desejar em vários pontos importantes para a educação.
Um desses pontos, segundo Terribili, é o convívio. “A troca em sala de aula e a vivência em turma trazem um engrandecimento importante que faz falta no ensino a distância”, diz. Para o professor, o ensino a distância deveria ser uma ferramenta a mais em cursos de pós-graduação, mas não a essência do curso. “Deveria ser uma atividade complementar, mas não a base do curso”, afirma.
Para Terribili, não há um critério objetivo para se afirmar qual seria o equilíbrio ideal entre aulas presenciais e a distância. Segundo o professor, tudo vai depender de como o curso está estruturado e do nível de maturidade dos participantes. “O percentual maior deve ser o do ensino presencial. Falaria em 80% e 20% para se começar a criar uma cultura de aprendizagem a distância”, diz.
Terribili, que além de professor é diretor de projetos da Unisys Brasil, não nega as vantagens da educação a distância e o reconhecimento dessa modalidade de ensino pelas empresas. “Tanto que muitas utilizam tal modalidade (e-learning) para realizar treinamento de seus funcionários, permitindo agilidade no processo de capacitação profissional e redução de custos”, mas aconselha aos candidatos a alunos muito cuidado. “O que mais me preocupa é a criação dos objetos de aprendizagem, como o material didático é preparado para chegar ao aluno. Isso deve ser feito pelo professor e não por um técnico de informática. É o professor quem conhece a prática pedagógica e ele deve elaborar todo o conteúdo com o apoio do técnico”, diz.
A aceitação dos cursos a distância tem mesmo melhorado no mercado, afirma a Associação Brasileira de Educação a Distância (Abed). Para a Abed, a adoção de programas de educação a distância por grandes empresas (como HP, McDonald´s, Coca Cola, Banco do Brasil e Petrobras, por exemplo) fez com que o mercado reconhecesse a eficácia e as vantagens dessa forma de ensino.
Terribili tem uma outra explicação. Para ele, o crescimento da procura por pós-graduações a distância é um reflexo da evolução tecnológica. “E tende a ocorrer ainda mais nos grandes centros urbanos, pela dificuldade de transporte, de tempo e de falta segurança. Além disso, é nos centros urbanos que as pessoas têm maior familiaridade com a tecnologia”, diz.
E foi a falta de tempo que levou Luis Carlos Gonçalves, 36 anos, a cursar uma pós-graduação a distância. Ele é secretário de Planejamento e Desenvolvimento da prefeitura de Artur Alvim e só conseguiria estudar se os horários fossem flexíveis. “Por conta da dinâmica do meu trabalho, tenho muitos compromissos à noite, como as discussões sobre o orçamento participativo feitas com a comunidade. Tem de ser à noite porque de dia as pessoas estão no trabalho. Isso me impedia de fazer um curso presencial. Agora, faço meu horário, tenho maior flexibilidade”, diz Gonçalves.
Mas fazer o próprio horário não significa dedicar pouco tempo aos estudos. Foi o que descobriu Marcos Ribeiro Campos, 57 anos, aluno de uma pós-graduação a distância em Gestão de Políticas Públicas Participativas para Cidade, na Universidade Metodista de São Paulo.
Formado em engenharia e em administração e há mais de 20 anos longe dos bancos escolares, Campos decidiu fazer uma pós-graduação para mudar de área no mercado de trabalho. Como mora em Piracicaba e na cidade não há uma instituição que ofereça o curso que ele deseja fazer, optou pela modalidade a distância. “O mais próximo ficaria a pelo menos duas horas de distância. Eu não teria como fazer porque para me deslocar até lá todo dia seria complicado”, diz.
Além disso, Campos pensou que uma pós-graduação feita a distância seria mais fácil. Ledo engano. “Acreditei que seria um curso mais tranqüilo, mas é bem puxado. Senti muita dificuldade no início. Primeiro por ter de me adaptar aos programas e ao sistema de ensino via internet. Até fazer esse treinamento e entender a sistemática leva um certo tempo. E, além disso, eu estava fora dessa rotina de estudos e tive dificuldades com as próprias matérias. É um tipo de leitura diferente da que estou habituado, minha área é mais tecnológica. A carga também é muito pesada, pensei que uma hora diária de estudo seria o suficiente, mas não é mesmo, preciso de muito mais. Tem de ir atrás dos textos, depois ler todos eles e eu estava desacostumado desse ritmo”, diz.
Campos, que termina no meio deste ano sua pós-graduação, quase desistiu do curso no meio do caminho. “Mas, com a ajuda dos filhos na parte de informática e o incentivo de minha irmã e de meu cunhado, que sempre me pediam pra seguir em frente, fui superando as dificuldades e agora já estou mais tranqüilo, me adaptei ao processo. Mas no início pensei que não fosse conseguir”, diz Campos. Desafio superado, agora ele quer encontrar um novo emprego e recomeçar a carreira nessa nova área.
DICAS PARA ESCOLHER UMA PÓS-GRADUAÇÃO A DISTÂNCIA
- Em primeiro lugar, verificar se o curso é autorizado e reconhecido pelo MEC. O site da Abraead
(www.abraead.com.br) possui a relação de todos os cursos a distância credenciados pela União.
- Escolher uma instituição de confiança e pedir a opinião de outras pessoas que já foram alunas de cursos oferecidos por ela.
- Certificar-se sobre a experiência e a bagagem dos professores. A titulação do corpo docente é um bom índice de avaliação.
- Tentar participar do curso ou de curso semelhante por algum período, mesmo que breve, para experimentar as ferramentas de ensino e avaliar se terá uma boa adaptação ao modelo.
- Verificar se o curso a distância também existe na forma presencial e se os conteúdos e as formas de avaliação são as mesmas.
- Informar-se sobre a estrutura exigida pelo curso, como a disponibilidade de computadores, impressoras e internet, e avaliar se terá acesso a tais recursos (que podem ser do próprio aluno ou oferecidos pela instituição em pólos regionais ou na sede da universidade).
Fonte: http://revistaensinosuperior.uol.com.br/textos.asp?codigo=11888
